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Notícias da Igreja
A FÉ ALÉM DO DESEJO
Pablo Bastos
Vivemos numa era marcada não só pela grande velocidade com que circulam as informações, mas também caracterizada por despertar, ininterruptamente, inúmeros desejos. Pode-se dizer que somos todos alvos de um concurso de circunstâncias perversas que nos deixam vulneráveis diante do que nossa essência é capaz de suportar. Para visualizar o que estou dizendo, darei uma breve pincelada na acepção psicanalítica de “das ding” ou “objeto perdido”.
Para a psicanálise o “objeto perdido” caracteriza uma experiência plena do sujeito, a qual não é possível de se vivenciar novamente, ainda que em uma situação rigorosamente semelhante. Quando, por exemplo, vivenciamos o nosso primeiro dia na faculdade temos uma sensação de plenitude, que com o passar do tempo vai se perdendo e dando outras formas à significação da faculdade, mesmo que nossos objetivos ainda sejam os mesmos.
É, portanto, essa constante necessidade de experimentar situações não vividas para suprir a falta do que pode ser sentido apenas uma vez que nos coloca na posição contínua de seres desejantes. Outro estímulo a nos constituirmos como tal é o nosso contato permanente com imagens carregadas de significado implícito, ou links, no jargão publicitário. Agora mesmo, enquanto digito este texto, há inúmeros símbolos carregados de significados que a todo tempo estão a me lembrar quem é o fabricante e qual é a versão do programa que estou usando. Logo, quando anunciarem uma nova versão, irá ocorrer uma associação destas imagens cuidadosamente trabalhada com o intuito de gerar em mim o desejo de adquiri-la. Mas a crítica não deve nos tornar inocentes, afinal isto não ocorre somente pelo perverso mundo do consumo, onde o lucro está acima de qualquer elemento humanístico.
Por conseguinte, nota-se hoje a construção de uma subjetividade massificada, uma exaltação de conceitos, comportamentos, vivências e morais que é construída no dia a dia através dos inúmeros elementos que cercam cada elemento desta sociedade. Isto acaba por apontar padrões distorcidos por interesses particulares. Observem como as novelas ditam não apenas modas, mas também padrões afetivos e de relacionamentos tantas vezes conjugando desenfreadamente e inescrupulosamente a palavra amor, conduzindo-a para o lugar da banalidade.
Em Mateus 19 (16-22) Jesus diz a um jovem rico, que todos os mandamentos traziam guardados consigo, mas ainda não sentia-se merecedor da vida eterna, Jesus então lhe disse que largasse tudo o que possuía e o seguisse, mas o jovem não foi capaz de fazê-lo considerando as muitas posses que tinha. Se o jovem guardava consigo os mandamentos,não deveria ele estar seguro de sua salvação? O foco deste jovem estava desviado, seu desejo era de plenitude material e não da sua alma, ele ansiava por somar aos seus bens a garantia da salvação, pois a lógica da plenitude costuma seguir os parâmetros de não haver espaços vazios. É óbvio que para conseguir a vida eterna não precisamos largar tudo o que temos, mas Cristo quis mostrar a este jovem que a plenitude que acalma o espírito só pode ser encontrada na fé. A fé está além do acreditar e é mais do que esperança, não é comodismo e nem um objeto palpável, mas sim aquilo que, por estar além do tangível, é capaz de oferecer paz à toda inquietação trazida pelo deslizamento metonímico do desejo, onde este salta de objeto em objeto a nos enganar.

Pablo F. Bastos Ribeiro, Estudante de Psicologia da PUC Minas e Moderador da União de Jovens da Segunda Igreja Presbiteriana
Fonte:
27/7/2010
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