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pastorais
METÁFORAS DE UMA VIDA PASSIVA
Bráulia Ribeiro
Sentei-me na reunião de quinta com meu caderninho. Procurava comprovar uma preocupação que trouxera do Brasil. O campus de Kailua envia de trezentas a quinhentas pessoas em equipes missionárias de curto prazo para o mundo inteiro a cada trimestre. Jovens dirigem o louvor com solos de guitarra, pulos, vozes intimistas à moda Coldplay ou gritos primais em havaiano. Apesar do sabor internacional, da mistura de estilos, as letras não diferenciam das que cantávamos no Brasil na nossa igreja em Porto Velho. A maioria se refere às minhas emoções e a um Deus que me ama, salva, transforma, ampara, cura, trata, mima. Eu sou o centro de minhas adorações.
As palavras que usamos no dia-a-dia influenciam nosso comportamento. Palavras definem nossa relação com o universo e nossa expectativa pela vida. Se interprertamos de maneira mística ou meramente psicológica, o fato é que a linguagem tem uma função essencial em nossa existência. No processo de nos fazer entendidos e tentar entender, criamos com as palavras figuras de linguagem. Usamos metáforas para compor imagens. Metáforas nos ajudam a criar padrões na linguagem, tecer realidades para explicar outras. Cada analogia nos leva a uma rede de referências. De acordo com James Geary, editor da coluna "Quotable Quotes", da revista Reader`s Digest, e autor de um livro sobre metáforas, usamos seis metáforas por minuto, como um recurso corriqueiro na comunicação. Geary constatou por meio de um estudo que as metáforas influenciam nossas decisões. [l] Pessoas se tornam mais propensas a uma decisão quando é estabelecido um determinado contexto, e metáforas criam o contexto das conversações.
No Brasil fiz uma análise textual de algumas músicas cristãs. Em quase todas o eu é soberano e central. Aqui procurei por metáforas. O que cantamos em nossos cultos, como nos vemos e como vemos ao Senhor? O que encontrei não me surpreendeu. O Senhor é doce, suave, meigo, uma brisa, um furacão, um abraço, um calor que me inunda, o abrigo que me protege, a mão que me ampara, um grande coração, aquele que me faz voar, aquele que chora por mim, que tem ciúmes de mim. Ele é também glória, majestade e beleza. É o Cordeiro com muito mais freqüência do que é o Leão... Nenhum problema. O nosso Deus é mesmo tudo isso. Mas é também muito mais. Eu, por minha vez, sou frágil, estou abatido, magoado, ferido e cansado; sou um nada, preciso de proteção; estou sempre à beira do pecado, estou chorando, meu canto é um eterno lamento. Vemos aqui um quadro triste no evangelicalismo atual. Embora verdadeiras, as imagens de um Deus extremamente meigo e dos seres humanos fragilizados, a quem ele serve, não nos contam toda a história. Produzem um estado mental angustiado e egocêntrico. Enquanto olho pra minha fragilidade, não ajudo o próximo. Enquanto fraco, nada vejo além do meu umbigo. Envolvido em meu romance celestial, esqueço meu destino terreal.
Nos anos 80, as músicas que produziram a minha geração missionária falavam de guerra,de exército, de conquista. Jesus era o Leão de Judá, o Senhor dos Exércitos, e eu, o soldado obediente à missão a qualquer preço. Pode-se argumentar que as metáforas daquela época produziram, quem sabe, o erro de uma missão arrogante, cega à realidade humana. As metáforas de hoje, no entanto, produzem uma passividade total. Enquanto canto àquele que me ama, sou uma árvore plantada no lugar de minha conveniência esperando que a brisa me refresque e o abrigo me proteja. Minha missão inexiste. Só nos resta esperar que James Geary esteja errado.
Nota 1. www.ted.com/talks/james_geary_ metaphorically_speaking .html
Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua•Kona, Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora de Chamada Radical (Editoro Ultimato). Artigo publicado com autorização expressa da Revista Ultimato.
20/7/2010
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